Meu Perfil
BRASIL, Sul, BENTO GONCALVES, Vale dos Vinhedos, Homem, de 46 a 55 anos, Italian, Spanish, Bebidas e vinhos, Música, Leitura



Histórico


Categorias
Todas as mensagens
 Citação


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 Vinícolas & Vinhedos
 Enoteca - Bruno Agostini
 Enoblogs
 Jornal Provino
 Stevan Arcari
 Uvifam


 
Blog de Werner Schumacher


Vinho, com dedo brasileiro, é “parkerizado”

O vinho L’Arco Amarone della Valpolicella 2003 recebeu 91 pontos de Robert Parker. De acordo com Parker, trata-se de um vinho com aromas de amoras silvestres e especiarias, de corpo médio, dentro dos mais modernos estilos de vinhos, cuja complexidade incorpora tanto o tradicional como o moderno da Valpolicella. É a primeira vez que Parker degusta um vinho L’Arco, produzido por Luca Fedrigo.

 

Para os que não sabem, Luiz Alberto Barichello é proprietário da Villa Bari, localizada entre a Vila Nova e Belém Velho em Porto Alegre, com belíssimos vinhedos nas colinas da região, estabeleceu uma “joint-venture” com Fedrigo para a elaboração dos vinhos L’Arco.

 

O motivo da minha satisfação não é o fato de que formamos a dupla Schumacher-Barichello do vinho brasileiro, mas por recordar uma bela experiência que tive com um Amarone L’Arco que o Luiz me presenteou. Sinceramente, não recordo a safra, ato falho para quem escreve sobre vinhos, mas voltando para casa fui jantar no Canta Maria, tradicional restaurante de grelhados de Bento Gonçalves, aliás, um dos locais que mais vende o Villa Bari.

 

Pedi ao Paulo Geremia, proprietário do restaurante, se podia abrir aquela garrafa de vinho para provar, que naturalmente fui atendido. A primeira impressão que tive não foi das melhores, pouco aroma, mas o vinho parecia fechado e o deixei de lado, pelas dúvidas, apenas pedi para decantá-lo.

 

Diante do valor que o L’Arco poderia ser vendido em um restaurante e, na época, não tinha nenhum vinho brasileiro que pudesse chegar a esse valor, pedi o vinho chileno mais caro que tinha na carta do Canta Maria, ainda assim, mais barato que o provável preço do Amarone della Valpolicella.

 

Uma explosão de aromas surgiu quando o garçom abriu o vinho chileno. Comentei com a minha mulher: isto é covardia, o que está pensando o Luiz? Como pretende vender este vinho no mercado brasileiro?

 

Bem seguimos o jantar acompanhado com o vinho chileno, mas paramos de comer antes de terminar a garrafa e este vinho começou a ficar pesado, a puxar, enfim, tornou-se difícil de beber. Pedi então uma porção do queijo do Randon, melhor que chamar tipo Grana-Padano e então conseguimos terminar a garrafa do chileno.

 

Sem mais pretensão de beber, peguei a taça com o que tinha ficado do L’Arco e qual não foi a minha surpresa ao perceber um aroma complexo, desenvolvido, que lembrava ameixas pretas e de uma delicadeza impressionante. Provei o vinho e ele descia aveludadamente, “aterciopelado”, como gostam de dizer os argentinos.

 

Com o L’Arco ficou reforçada a necessidade que alguns vinhos tem de ser decantados e que fique claro, não há verdade absoluta neste sentido, algumas meias verdades, mas neste caso funcionou maravilhosamente bem.

 

O L’Arco não é um vinho, portanto, de se comprar e ir abrindo a garrafa. Depois, ficou claro que alguns vinhos e, a grande maioria dos vinhos cheios de corpo, são fáceis de beber durante a refeição, afora isto, têm que ser mastigados, como uma costela dura, para descer. Por outro lado, vinhos como o L’Arco descem facilmente.

 

Lembro de uma visita que eu e Danio Braga, pra quem não sabe: é presidente nacional da ABS Associação Brasileira de Sommeliers e proprietário da Locanda Della Mimosa, um dos melhores restaurantes o mundo, fizemos ao Luiz em sua bela propriedade na Vila Nova.

 

Conversando sobre vinhos e degustando os Villa Bari, produzidos pelo Luiz, Danio comentou que um vinho, por mais complexo que seja, precisa de um equilíbrio que o torne fácil de beber. Foi uma conversa muito proveitosa, mas a surpresa estava por vir, foi quando o Luiz abriu uma garrafa de um Amarone della Valpolicella e, diante daquele vinho, disse a eles: posso morrer amanhã, pois nunca havia bebido algo igual.

 

Momentos assim me enchem tanto de alegria, que a vida não faria mais falta se acabasse naquele momento, tal a plenitude do gozo, do prazer. O Luiz me proporcionou esta sensação ao provar o mais famoso Amarone della Valpolicella, nada mais, nada menos, que um Quintarelli, uma das mais puras tradições da região.

 

Fedrigo é um enólogo discípulo de Quintarelli. Antes mesmo de saber o que era um Quintarelli, recordo ter visto este nome numa carta de um mais que centenário restaurante de Milão, a Eu 500, valor raro de ver para um vinho italiano.

 

Graças a Deus, uma dessas sensações de plenitude, a posso sentir com freqüência, é a de ouvir Sema cantar Summertime no último reduto da boemia porto-alegrense, o bar Odeon, mais ainda, acompanhada pelo grandíssimo Plauto Cruz, um dos maiores flautistas que o mundo já viu e ouviu, além da pianista Dionara Schneider e o saxofonista Mário. Não há interpretação igual, nem Billie Holiday. Tino, viva muito para que o Odeon se perpetue!

 

Mas o Luiz não para e, não faz muito, comprou uma propriedade na Toscana, a 35 km de Florença, com vinhedos para a elaboração de Chiati DOC, pasmem, mais em conta que os mais caros lotes do Vale dos Vinhedos. Em breve, quem sabe estaremos provando um Chianti parkerizado, desta feita, não só com o dedo, a mão e algo mais de um brasileiro. Oxalá, os Villa Bari, que recentemente foi campeão numa degustação a cegas no Rio, também chegue lá.



Escrito por Werner Schumacher às 13h11
[] [envie esta mensagem] []



A (in)competência do setor vitivinícola nacional

 

Quando se sabe o que se deve fazer e não se faz, ou isto é por burrice, ou para defender os interesses de alguns.

 

Visão 2025 - O setor vitivinícola brasileiro investiu muito tempo e uma verdadeira fortuna para o desenvolvimento de um plano estratégico, que ficou conhecido como Visão 2025. Há mais de dois anos, pelo menos, este plano está engavetado, mas se continua a solicitar verbas do Fundovitis para o mesmo, o que faz lembrar os atos secretos do Senado.

O Visão 2025 nos mostrou o muito que se deveria fazer para tornar o setor competitivo globalmente e, preferentemente, no mercado interno, o quintal da nossa casa, já que as nossas possibilidades externas são limitadas. A análise “Swot” do setor bem demonstra isto. Há um grande hiato entre a teoria e a prática, mas um plano estratégico é uma formidável ferramenta de desenvolvimento econômico e social.

 

Pesquisa - Em Bento Gonçalves está localizado o Centro Nacional de Pesquisa de Uva e Vinho da Embrapa, é um dos mais belos centros e raros são aqueles que tem estrutura similar no mundo, mas este centro está ocioso porque o setor não entendeu ainda a importância da pesquisa para o seu desenvolvimento e pouco o procura para estabelecer parcerias visando a busca de soluções.

Isto é típico de países subdesenvolvidos com baixo nível educacional, mas o Brasil não é mais um país subdesenvolvido, mesmo que tenha algumas características como tal e o próprio desinteresse pela pesquisa é uma clara demonstração disto.

A cada tonelada de uva recebida por uma vinícola australiana, esta é obrigada a doar um dólar australiano para o seu instituto de pesquisa e o governo faz o mesmo, assim, eles tem todos os anos mais de dois milhões de dólares australianos para pesquisa e por isto produzem um dos melhores vinhos do mundo hoje.

Se adotássemos o mesmo critério, teríamos mais de um milhão de reais para pesquisa, isto pensando apenas no vinho, ou seja, sem computar a uva de mesa, mas aqui parece não haver problemas como na Austrália.

 

Formação Profissional - Também, em Bento Gonçalves, está localizado o Instituto Federal do Rio Grande do Sul, com curso técnico e superior de enologia e viticultura, inclusive, com especializações, mas igualmente é pouco utilizado pelo setor, justo aquele que forma os seus recursos humanos. Para não dizer que varredor é obrigado a ter 2º grau para trabalhar, por exemplo, na AMBEV, operador de empilhadeira sim, no entanto, aqui equipamentos muitas vezes mais caros que uma empilhadeira são operados por semi-analfabetos e assim por diante.

Em um mercado globalizado e competitivo como o que vivemos não se consegue sobreviver sem forte investimento em recursos humanos, a menos que este mercado esteja blindado a competitividade, o que não parece ser o nosso caso.

 

Agricultura Familiar - A produção de uvas na Serra Gaúcha se caracteriza pela agricultura familiar e por pequenas propriedades, sendo que em média cada família tem dois hectares de vinhedos e com esta área, seja com cabernet ou isabel, é impossível ter renda suficiente para sustentar uma família.

O desemprego no setor é invisível, isto é, a indústria não precisa demitir, pois mesmo com o avanço dos importados as vendas destas são suficientes para manter um quadro enxuto. Filhos de agricultores estão procurando emprego na cidade, pois a terra não é mais suficiente para o  ganha-pão da família, em outras palavras: o desemprego se dá no campo e, portanto, não visível aos olhos da economia local.

Não há um estudo sócio-econômico que viabilize estas propriedades, aliás, envelhecida, daí a enorme quantidade das que estão a venda e a médio prazo assistiremos provavelmente falta de uva no setor. Um setor que não se preocupa com a sua fonte de matéria-prima não demonstra ser muito competente.

 

Política Econômica (Tributação, Câmbio, etc.) - A carga tributária sobre o vinho brasileiro é uma das mais altas do mundo, senão a maior, gira em torno a 52%, enquanto nos principais países produtores de vinhos do mundo está entre 16 e 20%. Recente estudo aponta que a cotação do Real em relação ao dólar americano deveria ser, no mínimo, o dobro da atual cotação e isto determina o avanço dos importados. Os custos trabalhistas brasileiro e a burocracia instalada neste país são forte ônus para as nossas empresas. Tudo isto e mais um pouco forma aquilo que costumamos chamar de CUSTO BRASIL, que torna pouco competitiva a nossa indústria.

 

Controle Fiscal - Os males do setor parecem não se encontrar – entre outras - nas causas acima, pois eles são fruto da conseqüência do avanço dos importados, do descaminho ou contrabando, da sonegação e da falsificação de produtos. Portanto, eticamente, o “setor” vitivinicola brasileiro solicitou ao governo a adoção do Selo de Controle Fiscal para moralizar o mercado, vejam bem, o mercado.

 

Presidente Lula: Quando na história deste país (e do mundo) o mercado foi moral e ético?

 

A adoção do Selo de Controle Fiscal, entre outras burocracias que estão por vir, poderá resultar na quebra de muitos empreendimentos da agricultura familiar. Seguramente, mais de 500 das 750 (ou 1120) vinícolas do Estado são produtoras de uvas e vinhos, tudo isto porque o custo operacional do uso deste controle poderá chegar até mesmo ao valor do preço mínimo da uva. Vinho é produzido com uva ou Selo Fiscal. A multiplicação deste custo pela própria tributação no mercado, substituições tributárias e tudo mais, tornará o vinho selado pouco competitivo no mercado, abrindo mais ainda espaço para os “DENOREX” (sangria, coquetel, etc.).

 

A maioria dos produtores será penalizada em favor de poucos, não mais de 20 empresas, que realmente tem a maior fatia do mercado, mais de 80%. Isto é motivo de orgulho para qualquer economista neoliberal ver que em um país governado pelo Partido dos Trabalhadores as leis econômicas de mercado são as que valem, pois elas – “aparentemente” – favorecem 20.000 famílias.

 

Ledo engano e assim continuará enquanto a guerra for contra as conseqüências e não contra as causas que realmente provocam os problemas.



Escrito por Werner Schumacher às 18h33
[] [envie esta mensagem] []




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]