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Como agradar gregos e troianos com câmbio valorizado?
Pelo menos, nos últimos sessenta dias, assistimos uma calorosa discussão sobre a taxa de câmbio apreciada. Cada um argumenta favoravelmente ou não de acordo com os seus interesses e, de um modo geral, todos parecem ter razão. O consumidor está contente, pois os produtos importados estão cotados abaixo dos similares nacionais, bem como, seu salário engordou, afinal, quando alguém imaginou o salário-mínimo por volta dos 300 dólares. Há não muito tempo era meta de qualquer governo fazer este valer 100 dólares. O poder aquisitivo aumentou, inflou na verdade. Isto favorece a importação de vinhos. Na virada de 2008 pra 2009 o dólar estava cotado em R$ 2,34 e para a próxima se estima que fique em R$ 1,70, ou seja, uma garrafa de vinho que no fim do ano passado custasse R$ 15,00, este fim de ano irá valer R$ 10,90 e isto significa dizer que ela está 27,3% mais em conta. Na prática talvez isto não ocorra, pois dificilmente o importador concederá descontos, para ele o que vale é o custo e não a cotação do dólar. Com o dólar em queda livre mundialmente, os preços só são atualizados e, olhe lá, quando de uma nova importação. Como explicar que vinhos vendidos mundialmente a US$ 6,00 a garrafa, aqui são vendidos pelo triplo deste valor. A alta carga tributária é uma explicação, mas não o suficiente para justificar a triplicação. Quem parece estar ganhando é apenas o importador e o consumidor iludido. O setor vinícola brasileiro também poderia tirar vantagens desta apreciação do dólar, já que esta serve para investimentos, isto é, importação de equipamentos, mudas para novos vinhedos, etc. No entanto, é sabida a descapitalização de praticamente todas as empresas brasileiras, com raríssimas exceções, também a falta de financiamentos com prazos, carências e juros competitivos globalmente, além da inexistência de incentivos fiscais. Recordo uma entrevista do dono da churrascaria Fogo de Chão, contava do primeiro financiamento que recebeu nos Estados Unidos: “20 anos para pagar e como garantia a sua real experiência no ramo além de juros de 6% ao ano”. Já a família Pulenta, ex-proprietária da Trapiche/Peñaflor, investiu na implantação de 4 mil hectares de vinhedos em San Juan, Argentina, através da isenção de ICMS, uma espécie de Fundopen de lá. Poder-se-ia enumerar muitos outros exemplos no exterior, que bem demonstram vantagens competitivas. Por outro lado, nossa vitivinicultura precisa urgentemente de uma reestruturação para se tornar mais competitiva, mas carece de investimentos em pesquisa, de educação e formação via extensão rural, bem como, dar condições à agricultura familiar para que esta seja viável economicamente. Em outras palavras, para que um setor seja competitivo globalmente se faz necessário que haja igualdade de competição e isto significa que as normas ou condições de negócios dos países sejam, no mínimo, equilibradas, caso contrário será uma concorrência desleal. Para alguns estas argumentações são próprias de alguém ligado ao setor vinícola nacional, que está puxando a brasa para o seu assado, mas não é difícil de ver que o dólar baixo interessa ao governo, pois o salário-mínimo vale mais e isto interessa politicamente em anos eleitorais, mais, se o dólar estivesse cotado a R$ 1,00 a nossa economia seria a 5ª do mundo e isto infla o ego de qualquer presidente e de seu povo. O setor vinícola brasileiro precisa fazer a sua parte e está se esforçando para isto, alguns resultados são dignos de mérito, mas é preciso que lhe seja dado igualdade de condições para competir, isto feito e se continuarmos a chorar, qualquer que seja o dólar, a tributação, ou o que for, só protecionismo mesmo ao estilo de pinos e tomadas exclusivas para o mercado brasileiro, então veremos garrafas, rolhas, rótulos, etc. exclusivos, sem os quais os vinhos não entrariam no nosso mercado, quem sabe empresas estrangeiras viriam investir aqui para melhor aproveitá-lo. Como podem ver, é difícil agradar gregos e troianos, parece ser difícil encontrar o caminho do meio por consenso, mesmo porque o desenvolvimento de uma nação não é visto regionalmente. Várias regiões do país poderiam ser beneficiadas com uma política vitivinícola, mas isto é outra história.
Escrito por Werner Schumacher às 13h39
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