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Blog de Werner Schumacher


Sumatra, terremoto e o sagu

Sumatra virou notícia esta semana pelo terrível “tsunami” que passou por lá, mas a primeira vez que esta ilha me chamou a atenção foi ao ler um livro italiano sobre a viagem e vida de Marco Polo. Por volta de 1285 ele passou por lá e talvez este seja o primeiro registro da história sobre o sagu, este mesmo nome dado ao tão apreciado doce aqui da Serra Gaúcha, levando-o para Veneza.

 

Curiosamente, Veneza está no Vêneto, região que mandou muitos emigrantes para o Brasil e lá o sagu, como se conhece aqui, parece não existir. A razão talvez seja o fato de que o sagu levado por Marco Polo era extraído de uma árvore, enquanto o nosso é produto de uma raiz, a mandioca.

 

Dessa feita, o “tsunami” passou é pela minha cabeça, pois não conseguia ligar uma coisa com outra, ou seja, seria o sagu original obtido de uma árvore? Seria o nosso sagu uma falcatrua? Como se perdeu isto na itália e aqui ainda sobrevive?

Para quem acha que isto é perda de tempo, recomendo a leitura do livro Comida, de Felipe Arnesto, onde ele conta toda a história da humanidade através da alimentação.

 

Bem após algumas pesquisas, passando inclusive pela primeira volta ao mundo, descobrimos alguma coisa.

 

Após, Marco Polo, outro registro interessante é o diário da expedição de Fernão de Magalhães, A Primeira Viagem ao Redor do Mundo, sobre o qual Gabriel García Márquez diz: “é um dos livros mais importantes da minha vida”. Esta expedição começou em agosto de 1519, portanto, já há 490 anos. Fernão relatou que ao passar pelo Brasil também encontrou aqui sagu. De onde seguiu, cruzando o estreito que leva o seu nome, para as Filipinas, Indonésia e cia. limitada. Por lá experimentou uma bebida (já provada e documentada por marco Pólo) feita a base de sagu pelos nativos e a bebedeira foi tal que acabou morto juntamente com a sua tripulação.

 

Os nativos da região extraiam um líquido de uma palmeira que ao fermentar produzia esta bebida alcoólica, que os marinheiros de Fernão de Magalhães chamavam de vinho de sagu, afinal, este era o nome da palmeira. Também, produziam desta seiva uma fécula para fazer pães e outros alimentos.

 

O nosso doce é feito igualmente a partir de uma fécula, mas de mandioca, também tem algo a ver com vinho, mas apenas para preparar o nosso tradicional doce. Portanto, a bolinha de sagu não dá em árvore, é um produto industrial, embora muitas vezes alguns acreditam, principalmente, no dia 1º de abril que o sagu é uma frutinha.

 

Enfim, não é a mesma coisa, mas causou, pelo menos na minha cabeça, um terremoto quando li isto na passagem de Marco Pólo por Sumatra, não conseguia estabelecer a relação entre os dois produtos. Algo parecido ocorreu comigo na China, em relação a um apetrecho gaúcho, mas isto é assunto pra outro dia.



Escrito por Werner Schumacher às 13h24
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Criado símbolo para o espumante brasileiro

Taça Simbolo Espumante Brasileiro

 

Há muitos anos foi decretado a inconveniência do uso das tradicionais taças para espumantes, conta-se que o formato se deve ao molde extraído dos seios da rainha Maria Antonieta, esposa do Rei Luís XVI. Naquele tempo não havia silicone, caso contrário o conteúdo de uma garrafa caberia numa taça turbinada, aliás, a taça se chamaria Pâmela.

 

Veio então o predomínio da flauta (flüte), ideal para se admirar o perlage, a evolução das bolinhas de gás e por fim se constatou que era só para isto mesmo que servia, nada mais, além de serem mais elegantes de um modo geral que as taças em forma de seio.

 

Passou-se então a se pesquisar a taça ideal para espumantes e algumas regiões ou empresas identificaram algumas. Minha primeira experiência com uma delas foi em 2005, quando em visita a região italiana de Franciacorta, degustei os espumantes da cantina Bellavista, na mesma visita estava o Gilberto Pedrucci, vencedor do prêmio Enólogo do Ano daquele ano e um grupo de degustadores da ONAV – Organização Nacional de Degustadores (Assaggiattori) de Vinhos.

 

Conversamos bastante sobre o assunto e foi fácil perceber a evolução do perlage, em forma de espiral e mais intenso que nas flautas, também diferenças aromáticas perceptíveis, não astronômicas, mas significativas. Trouxe uma taça, que infelizmente se quebrou na viagem.

 

 

Taça de Franciacorta 

 

Fiquei com aquilo na cabeça e qual não foi a minha surpresa este ano, quatro após a visita a Franciacorta, que fui convidado para participar de um grupo que escolheria a taça símbolo do espumante brasileiro.

 

Na primeira fase, examinamos o visual de várias taças, inclusive do estilo maria Antonieta  e dez foram selecionadas. Na segunda etapa, a mais “sacrificante”, tivemos que degustar um espumante, menos mal que era um belo produto, nas diversas taças e aí julgá-las organolepticamente também.

 

Pude perceber que todas as taças semelhantes à escolhida apresentavam um perlage mais intenso, uma maior permanência e volume de espuma e diferença significante na percepção aromática.

 

Fico feliz em ter participado desta escolha, se votei certo: não lembro, mas a ABE – Associação Brasileira de Enologia está de parabéns e belíssima a apresentação da taça na Avaliação Nacional de Vinhos deste ano e realizado um brinde coletivo digno de ser publicado no livro dos recordes, mais de 750 convivas.

 

Esta sim é um símbolo digno do produto brasileiro, belo, elegante e descolado.

 

 

Maiores detalhes sobre o processo de escolha da taça, veja em www.enologia.org.br



Escrito por Werner Schumacher às 15h56
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Vale dos Vinhedos é salvo pelo Gongo*

No último assalto o Vale dos Vinhedos se livrou de ver parte do seu território loteado, não por mérito próprio, mas por pressão do Prefeito Lunelli e pela repercussão negativa do caso em todo o território nacional.

 

Por iniciativa da Lex Empreendimentos que, para evitar maiores desgastes, desistiu do negócio. A Lex merece nossas felicitações.

 

Estuda-se agora o que fazer com a área, de certo modo atender as expectativas do proprietário da terra e, oxalá, a utilizem para criar um parque temático e instalar o Museu do Vinho, desejado pela comunidade.

 

Espera-se agora que os empresários do Vale dos Vinhedos, após o susto, passem a valorizar mais os seus produtores de uva e – de fato – incluí-los no processo de desenvolvimento da região.

 

É necessário valorizar a uva produzida na região e que a maior quantidade possível de vinhos sejam elaborados com esta origem, recebam o selo de indicação geográfica e faça os produtores se sentirem orgulhosos de pertencerem ao Vale dos Vinhedos.

 

Quando o Vale começou, o preço médio da garrafa de vinho girava em torno de R$ 4,00 e, atualmente, não sai das cantinas por menos de R$ 12,00. Muito desta valorização se deve a Indicação de Procedência, daí a necessidade de se remunerar adequadamente toda a cadeia produtiva.

 

É preciso equidade.

 

Resta saber agora se a ameaça do vereador que abriu o processo irá adiante, ou seja, por revanchismo buscar todas as irregularidades existentes nas vinícolas do Vale dos Vinhedos.

 

*Houaiss: livrar-se de um perigo ou situação constrangedora no último instante.



Escrito por Werner Schumacher às 15h12
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“Homo Economicus” encontra habitat ideal no Vale dos Vinhedos

De acordo com o Dicionário de Economia do Século XXI, de Paulo Sandroni e editado pela Record, “Homo Economicus” seria, vejam bem, seria o homem perfeitamente racional e capaz de fundamentar suas decisões exclusivamente por razões econômicas, preocupando-se em obter o máximo de benefício com o mínimo de sacrifício de modo imediato.

Em suma, o homem econômico seria aquele que agiria racionalmente no sentido de maximizar a sua riqueza e assim introduzir novos métodos produtivos para enfrentar a concorrência no mercado. Devemos entender, portanto, que esta seria uma abstração da Escola Clássica útil para a elaboração de suas teorias.

 

A Escola Histórica Alemã procurou contrapor essa noção abstrata do homem, e procurou estudar o comportamento do verdadeiro homem, este, no entanto, é uma espécie extinta, oxalá estivesse em extincão, mas não sobreviveu ao homem econômico, como fazia supor a moderna teoria econômica.

 

O homem econômico encontrou habitat ideal no Vale dos Vinhedos.

 

O homem econômico presente no Vale dos Vinhedos é da espécie “Selccap-especusnancius”, encontrados apenas em ambiente de capitalismo selvagem, especulativo e ganancioso. A espécie é vulgarmente chamada pelos cientistas por “cusnancius”, pois são hábeis em ferrar aquilo dos outros.

 

Os “cusnancios” atuam como abutres, ou seja, eles sobrevoam o seu habitat observando a ação das “abelhas operárias”, dando a falsa-impressão a estas de que elas são as abelhas rainhas. Uma das características espetaculares desta espécie de homem econômico é o faro pelo vil metal, afinal, o negócio deles é maximizar o lucro com mínimo sacrifício.

Como podem ver esta espécie difere um pouco daquela tradicional, pois sofreu uma mutação, adquiriu o gene da paciência, para melhor se adaptar ao mundo moderno, ávido pela pressa.

 

É uma espécie que impressiona não apenas pelo racionalismo, mas também pela teoria do pragmatismo, aquela que diz: o que importa é o resultado, custe o que custar, atropele, passe por cima, etc., mate a natureza se for o caso, mas atinja o seu objetivo.

 

Para alguns, sua habilidade maior é a escolha daqueles que atuam no habitat selecionado e a forma que interagem com estes e os meios que utilizam para obter suas vantagens, muitas vezes via agentes externos e, sempre, sob o manto da lei.

 

Vamos exemplificar a fim de se tornar mais claro o modo de atuação dos “cusnacios”. Eles identificam o habitat e observam as ações dos seus atores, neste caso o desenvolvimento de algum produto, ou algo, que destaque o habitat. Conseguiram observar o movimento dos produtores de vinho do Vale dos Vinhedos, muito preocupados em criar um território único na Serra Gaúcha, com a busca de excelência na qualidade de seus vinhos e que isto viesse a repercutir nacional e internacionalmente.

 

O primeiro passo estava dado, o habitat vale a pena. Então, trataram de se aliar a alguns desses atores, que ingenuamente foram fisgados, para propor negócios que viriam a valorizar ainda mais o Vale dos Vinhedos e contribuir para a imagem dos seus vinhos.

 

O primeiro sinal das ações dos “cusnácios” foi criar aquilo que hoje é conhecido como bolha imobiliária, pois pagaram dez vezes o valor do hectare no Vale dos Vinhedos, para um empreendimento magnífico, trazendo para o mesmo muitas “abelhas operárias” e, nesta onda progressista, começaram realmente a investir pesado.

 

Surgiu então um condomínio de luxo, cujo valor do hectare, dividido em lotes mais do que quintuplicou o valor da terra. Os “cusnacios” fizeram uma descoberta antropológica importantíssima, que os “abelhas-operárias”, antes fortemente unidas, estavam agora divididas em grupos, dando a perceber claramente que havia os explorados e os exploradores.

 

Primeiramente, trataram de incentivar o plantio de uvas e a valorizar o preço, principalmente, daquelas viníferas que chegaram a valer até R$ 3,00 por quilo, provocando uma enorme revolução na “colméia”, vinhedos de uvas americanas foram arrancados, alguns explorados viram a oportunidade de se tornarem exploradores e abriram suas cantinas. Os "cusnacios" começaram a trabalhar o fator inveja, desviando a atenção de todos.

 

Aquilo que no início eram meia dúzia de vinícolas, passaram a ser quase quarenta, fora as clandestinas. Outros investimentos foram atraídos para o Vale dos Vinhedos. Uma grande indústria foi instalada no Vale dos Vinhedos, construindo seus galpões no platô de um morro, sem respeito à linha do horizonte e as mata nativa ali existente. Passou a poluir sonoramente o local, pra felicidade de alguns, pois isto é sinônimo de progresso.

 

Tudo se desenvolveu espetacularmente bem para os “cusnacios” então passaram a atacar os explorados, o preço da uva caiu e junto a motivação para o cultivo da videira. Com o valor da terra valorizado, cálculos milagrosos começaram a circular entre os explorados de modo a, subliminarmente, fazê-los perceber a vantagem de vender as suas terras, afinal estão ficando velho, seus filhos foram atraídos pela cidade, principalmente, pela falta de mulheres no meio rural, pois suas filhas também foram para a cidade estudar para terem outra vida que não a de dona de casa rural. Habilmente atrairam alguns para bem demonstrar a realidade dos fatos.

 

Faltavam algumas garantias para que o plano desse certo, racional e pragmaticamente, trataram de modificar o Plano Diretor em reuniões pouco divulgadas e, principalmente, por serem conhecedores da pouca participação dos atores sociais do Vale dos Vinhedos nas questões políticas, lograram (a população) conseguir as garantias necessárias.

 

Após alguns vôos desses abutres e de alguns agentes externos, ficou claramente constado que tudo estava nos conformes e que, sob o manto da lei, todos estavam protegidos e ninguém poderia dizer ou fazer nada contra eles, sequer de terem corrompido os agentes externos, conhecidos como zangões na colméia, que - pela primeira vez na história deste país – sentiram-se úteis e muito orgulhosos, leais as “abelhas-inferiores”, vindas da África para tomar conta da colméia Vale dos Vinhedos, fazendo aumentar o poder dos zangões, ingenuamente tidos como confiáveis pelas abelhas-operárias, hoje, sabidamente, todos a serviço do homem econômico da espécie dos “cusnacios”.

 

Mais uma vez a teoria da evolução se prova, o “Homo Economicus” se modifica, faltava apenas dividi-lo em espécies, quem sabe agora eu seja laureado com o Prêmio Nobel da Economia, por esta importante descoberta científica de algo que o mundo imaginava já arqueológico, pra não dizer jurássico.



Escrito por Werner Schumacher às 14h57
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